23.7.07

Sonho

Navego por rios escuros
Os quais nunca sei por onde vão findar.
E debaixo das pontes ouço murmúrios
Que, por vezes, insisto em ignorar.

O cheiro, o gosto e a visão daqui
Enlouquecem-me demasiadamente por noites
Solitárias em que afogo dentro de mim.

Há fumaça, há sujeira. E meu medo?
Não há. Daí nasce um perfume
Que nem todos podem notar.

Há dias nem vejo a luz.
E a noite nem é verdadeira.
A única realidade deveras existente
Não é minha existência.
A única verdade
É minha mera resistência.

24.6.07

"Tudo que é sólido se desmancha no ar"

A única verdade em que acredito
é a que não posso ver.

17.6.07

Luzes














Meu desejo repousa calado em mim
Como um rio que corre debaixo da ponte
Aguardando um vendaval que o faça transbordar

Tenho as luzes necessárias para seguir meu caminho.
Nem ao ponto de me ofuscarem a visão
nem tão poucas que me iludam com a escuridão.

Eu vejo além do caminho.
Mesmo que isso não exista
é mais bonito do que o que me ensiram a ver

É a maneira que encontrei de ser feliz.

Nairo J. B. Lopes

9.6.07

Presságio



O amor, quando se revela,
Não se sabe revelar.
Sabe bem olhar pra ela,
Mas não lhe sabe falar.

Quem quer dizer o que sente
Não sabe o que há de dizer.
Fala: parece que mente...
Cala: parece esquecer...

Ah, mas se ela adivinhasse,
Se pudesse ouvir o olhar,
E se um olhar lhe bastasse
Pra saber que a estão a amar!

Mas quem sente muito, cala;
Quem quer dizer quanto sente
Fica sem alma nem fala,
Fica só, inteiramente!

Mas se isto puder contar-lhe
O que não lhe ouso contar,
Já não terei que falar-lhe
Porque lhe estou a falar...


Fernando Pessoa - 24/04/1928

Extraído de: http://www.releituras.com/fpessoa_pressagio.asp

4.6.07

...e lá se vai mais um dia...




Sol que vira ventania
e a chuva cai sem parar


As cores explodem de alegria
e as nuvens insistem em chorar.

N. Lopes

9.5.07

Em silêncio

Nos corredores da biblioteca,

Entre livros e avisos,

Me deparei com a solidão.

N. Lopes

29.4.07

"Tempus Fugit"

Eu ando pelo universo. Atravesso pelo outro lado e não sei onde chego; eu nunca chego. A maioria das pessoas daqui se foi, só restaram corpos. Corpos que falam, batem, beijam, choram, mas não sentem. Corpos que matam, dizem que amam e mentem. Há corpos que mais se parecem armas de combate, outros corpos já se sentem como peças de uma imensa engrenagem. Eu sou um corpo, um corpo tomado pela ferrugem.

Chaplin morreu, a Filosofia se perdeu e, no seu lugar, um outdoor apareceu. Meu jardim se encheu de cinzas.

Aquele sussurro não me deixou dormir; algo me sacudia por dentro. Pois, quanto mais o tempo passava, mais a chama que queimava em meu peito era apagada; e meus olhos ficavam mais ofuscados. É assim que acontece com todos algum dia. Até que de tão ofuscados eles se apagam e as cortinas se fecham; e a escuridão toma conta de meu corpo. Eu não sei onde vou estar quando chegar. Se chegar em algum lugar.

N. Lopes