Sentimento
num poema nem sequer o invento.
Pois poema com sentimento
não causa contentamento.
Mas, no entanto, eu tento
e quem tenta, no entanto, tanto tenta
que intenta qualquer sentimento.
N. Lopes

Apagar-me
diluir-me
desmanchar-me
até que depois
de mim
de nós
de tudo
não reste mais
que o charme.
Paulo Leminski
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Voltando a pensar no que mais sentia doer, não via motivo, muito menos saída para tudo que estava vivendo. Desde alguns dias, andava por um labirinto formado de espinhos e, a cada dia, os espinhos cresciam e se tornava mais difícil caminhar para qualquer lugar que fosse, pois, saída, nem acreditava que poderia existir. Os cortes e arranhões não se cicatrizavam e por onde andava uma parte de si era perdida pelo caminho.
A viagem vai começar. Tenho um segundo, antes que outros apareçam, pra descobrir o que ainda me falta. E é neste segundo que a memória me restitui um sonho antigo,recorrente, daqueles sonhos em que se juntaram todas as cores do mundo: por um lago de águas baixas, de pouco mais que um palmo de altura, avanço na direção de um Palácio, enquanto a água faz um rumor de seda rasgada. Avanço por este lago, nu, sob o sol claro, e aos lados há a mesma árvore enorme e quieta. Não sei o que isto significa, que coisas estão sendo murmuradas neste sonho, mas certamente o tempo futuro me dirá.
Nu, avançando as águas, tão simples, como uma lei que tudo explicasse.
Little Paul
No corpo cálido escorria leve e enlouquecidamente uma gota de suor. No pulsar do peito ouviu as palavras que lhe dizia o silêncio e viu coisas realmente difíceis de notar. Na melena viajou por noites e na aurora sentiu-se rei. E, ao tocar o corpo, numa passagem, sentiu em sua boca o sabor do éden. Os olhos faziam-no alucinado em uma leve e enlouquecida mente.
Apesar de tudo, a cada manhã, o sol novamente resplandece poesia. E eu, quando posso, continuo pensando que será mais um dia. Meus lábios já se ressecaram como o chão; e o que há pra beber, muitas vezes, nem escorre pelo rosto. Os olhos que antes olhavam o doce brilho da mulher que ontem se foi, hoje só observam as crianças que ficaram aos meus pés ajoelhadas, quando aquela saiu para nunca mais voltar. Disseram-me que em algum lugar, bem longe, as coisas são melhores, mas eu ainda estou pensando. Dizem que lá é que se vive de verdade. Dizem que lá o sol nasce para todos; só a sombra que não é verdadeira, pensei. Mas eu prefiro aqui. Aqui é o meu lugar. Ouço daqui os gritos que ecoam por lá. E não quero participar daquela peça.
N. Lopes