31.8.07

Sentimentos Repassados [Delírios de Outrora]

Quando acordei permanecia intacto. Sabia que nada havia mudado. Estava embaixo do céu noturno que me conduzira ao delírio. Os vaga-lumes brilhavam ao meu alcance como faíscas queimando a visão. O sussurro ainda permanecia a me estremecer. Havia tentado mais uma vez sonhar, mas não conseguira. Estava por perder meu maior desejo, continuando a viver como na infância, onde a pureza dos desejos não via maldade. Coloquei-me a lutar, mas, por sorte, esquivava-me de mim mesmo. Como um velho que já sem forças, caí. E meu rio congelado foi aos poucos se desfazendo, e assim pude ver além do que me mostrara a realidade. Então, adormeci.

Por trás dos rostos, via os olhos em direção ao chão. E os outros a lhe fitar o corpo, enquanto o brilho resplandecia em primeiro plano, na escuridão. E, além disso, pude ver as linhas que faziam a face se levantar tão facilmente que desacreditava e me afundava nas imagens. Falsificaram-me a verdade e todas as bocas que permaneciam caladas, agora seguiam em direção à carne. Dos gritos que partiram de mim só ouviram sussurros. Mas, à noite, as luzes nos enganam e por acaso vemos um mundo distorcido pela volúpia.

Traí-me ao ver a imagem no espelho. Pois sabia que o outro eu não era o mesmo que o olhava. A imagem que se reflete não reproduz o que vejo pensando. Sendo assim, só me via como os outros e nunca saberia me entender, por não saber olhar-me nos olhos. Meu delírio de outrora saltou os óbices abstratos de minha mente vindo a fomentar minha lucidez. Minhas águas novamente congelaram com o despertar. Sentia falta da leveza de meu corpo e afundei-me no vazio.

N. Lopes


27.8.07

Um Poema





Por trás de um poema
Há um mundo.
Um mundo maior que o simples mundo.
Um mundo melhor que o próprio mundo.

N. Lopes

21.8.07

Jardim [Flores Mortas]



















Eu que, como você, nasci no jardim
agora desconheço as faces que daqui brotaram.
Sei que não faria nada por mim
porque ao chão seus pés se agarraram.
E o que me conforta não é o som do vento
mas sim as flores que se balançam
ao ouvir sua música soar.
As flores brincam e dançam
pois se contentam em não mais poder amar.

Todos somos flores,
vindos da mesma semente.
E penso que o vento não mais me conforta
quando não vejo razão de existirem flores tão tortas
e de sentimentos tão diferentes.


N. Lopes




17.8.07

Liberdade

"Deus dá a nostalgia pelo vôo.
As religiões constroem gaiolas."


Rubem Alves. Palvras de grande inquisidor...
Correio Popular. 22 de maio de 2005

23.7.07

Sonho

Navego por rios escuros
Os quais nunca sei por onde vão findar.
E debaixo das pontes ouço murmúrios
Que, por vezes, insisto em ignorar.

O cheiro, o gosto e a visão daqui
Enlouquecem-me demasiadamente por noites
Solitárias em que afogo dentro de mim.

Há fumaça, há sujeira. E meu medo?
Não há. Daí nasce um perfume
Que nem todos podem notar.

Há dias nem vejo a luz.
E a noite nem é verdadeira.
A única realidade deveras existente
Não é minha existência.
A única verdade
É minha mera resistência.

24.6.07

"Tudo que é sólido se desmancha no ar"

A única verdade em que acredito
é a que não posso ver.

17.6.07

Luzes














Meu desejo repousa calado em mim
Como um rio que corre debaixo da ponte
Aguardando um vendaval que o faça transbordar

Tenho as luzes necessárias para seguir meu caminho.
Nem ao ponto de me ofuscarem a visão
nem tão poucas que me iludam com a escuridão.

Eu vejo além do caminho.
Mesmo que isso não exista
é mais bonito do que o que me ensiram a ver

É a maneira que encontrei de ser feliz.

Nairo J. B. Lopes