No corpo cálido escorria leve e enlouquecidamente uma gota de suor. No pulsar do peito ouviu as palavras que lhe dizia o silêncio e viu coisas realmente difíceis de notar. Na melena viajou por noites e na aurora sentiu-se rei. E, ao tocar o corpo, numa passagem, sentiu em sua boca o sabor do éden. Os olhos faziam-no alucinado em uma leve e enlouquecida mente.
As luzes ao seu redor guiavam-no na escuridão e, sendo assim, não se importava aonde chegaria, pois direções não lhe diziam nada mais do que o silêncio. Mas o silêncio do outro corpo o diz o que queria e devia ouvir. E o que queria era não saber, não acordar, não ter mais olhos opacos para enxergar. Pois, para ele “o amor era um demônio desgraçado que vivia a lhe passar rasteiras”. Mata-lo haveria se, porventura o notasse, mas, ao menos o podia ver. Pálido, despertou em mais uma manhã. E planejara todo o seu dia em menos de um piscar de olhos. E, ao olhar-se no espelho, viu “o indivíduo e a muralha. O indivíduo contra a muralha”.
Apesar de tudo, a cada manhã, o sol novamente resplandece poesia. E eu, quando posso, continuo pensando que será mais um dia. Meus lábios já se ressecaram como o chão; e o que há pra beber, muitas vezes, nem escorre pelo rosto. Os olhos que antes olhavam o doce brilho da mulher que ontem se foi, hoje só observam as crianças que ficaram aos meus pés ajoelhadas, quando aquela saiu para nunca mais voltar. Disseram-me que em algum lugar, bem longe, as coisas são melhores, mas eu ainda estou pensando. Dizem que lá é que se vive de verdade. Dizem que lá o sol nasce para todos; só a sombra que não é verdadeira, pensei. Mas eu prefiro aqui. Aqui é o meu lugar. Ouço daqui os gritos que ecoam por lá. E não quero participar daquela peça.
Quando acordei permanecia intacto. Sabia que nada havia mudado. Estava embaixo do céu noturno que me conduzira ao delírio. Os vaga-lumes brilhavam ao meu alcance como faíscas queimando a visão. O sussurro ainda permanecia a me estremecer. Havia tentado mais uma vez sonhar, mas não conseguira. Estava por perder meu maior desejo, continuando a viver como na infância, onde a pureza dos desejos não via maldade. Coloquei-me a lutar, mas, por sorte, esquivava-me de mim mesmo. Como um velho que já sem forças, caí. E meu rio congelado foi aos poucos se desfazendo, e assim pude ver além do que me mostrara a realidade. Então, adormeci.
Por trás dos rostos, via os olhos em direção ao chão. E os outros a lhe fitar o corpo, enquanto o brilho resplandecia em primeiro plano, na escuridão. E, além disso, pude ver as linhas que faziam a face se levantar tão facilmente que desacreditava e me afundava nas imagens. Falsificaram-me a verdade e todas as bocas que permaneciam caladas, agora seguiam em direção à carne. Dos gritos que partiram de mim só ouviram sussurros. Mas, à noite, as luzes nos enganam e por acaso vemos um mundo distorcido pela volúpia.
Traí-me ao ver a imagem no espelho. Pois sabia que o outro eu não era o mesmo que o olhava. A imagem que se reflete não reproduz o que vejo pensando. Sendo assim, só me via como os outros e nunca saberia me entender, por não saber olhar-me nos olhos. Meu delírio de outrora saltou os óbices abstratos de minha mente vindo a fomentar minha lucidez. Minhas águas novamente congelaram com o despertar. Sentia falta da leveza de meu corpo e afundei-me no vazio.
Eu que, como você, nasci no jardim
agora desconheço as faces que daqui brotaram.
Sei que não faria nada por mim
porque ao chão seus pés se agarraram.
E o que me conforta não é o som do vento
mas sim as flores que se balançam
ao ouvir sua música soar.
As flores brincam e dançam
pois se contentam em não mais poder amar.
Todos somos flores,
vindos da mesma semente.
E penso que o vento não mais me conforta
quando não vejo razão de existirem flores tão tortas
e de sentimentos tão diferentes.